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Palavras sobre o Mundo

Espaço destinado aos ecos, silêncios e construção do pensamento. Aos limites da racionalidade, mas sobretudo na reflexão sobre a grande pólis que embarcamos todos os dias, nesta vida. O mundo, seja bem-vindo.

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Do Leste não vem só frio

por Tiago Aboim, em 01.12.16

Para os que julgavam que a guerra fria terminou em 1989, enganem-se, ela continua bem presente e entre nós. Os protagonistas não mudaram, Estados Unidos e Rússia, que com os seus parceiros, assumem claras divergências nos principais assuntos internacionais.

 

Mas convém realçar que o acontecimento mais importante de consonância entre os dois países, foi este ano e tem um interveniente português. Falo-vos da eleição de António Guterres para Secretário-Geral das Nações Unidas. Um momento em que o embaixador russo nas Nações Unidas consagra o nome de Guterres em Nova Iorque após a reunião dos membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas, na sede da organização. É sem dúvida um facto político a não descurar na cena política internacional nas relações entre a Rússia e os EUA, em que ambos concordaram na escolha de um secretário-geral das Nações Unidas.Processo que necessita de uma reforma, pois não deveriam ser permitidas candidaturas com o jogo a meio, como aconteceu nestas eleições.

 

Neste artigo, não apresentarei a narrativa de acontecimentos sobre as relações entre Estados Unidos e Rússia nos últimos 27 anos. Mas realço a ação político-diplomática que o ainda o Presidente dos Estados Unidos tem tido na tentativa de resolução e de aproximação a Moscovo, mas sem o sucesso esperado. Ao invés, parece que voltou o telefone vermelho entre a Casa Branca e Moscovo, como aquele que decorreu na primeira parte desta constante tensão ocidente-leste. 

 

Vivemos talvez o período mais tenso entre estes dois países no século XXI. O xadrez político tem vários tabuleiros, nomeadamente, na problemática da Síria, Crimeia e no combate ao Daesh, e até no próprio continente europeu com as fronteiras a leste. E talvez seja aqui um problema sério, que tem sido descurado por parte das autoridades europeias, mas que as autoridades nacionais dos países da União Europeia a leste têm alertado. Uma enorme vulnerabilidade dentro da Europa.

 

Após a extinção do Pacto de Varsóvia, muitos dos países que integravam esta aliança militar com Moscovo foram inseridos na Aliança Atlântica, algo que nunca foi muito bem aceite pelas autoridades russas, que consideravam a sua integração como uma espécie de provocação. Aliás, é a leste que as forças da NATO têm tido os seus principais testes e simulações.

 

Por outro lado, Moscovo aproxima as suas tropas para junto das fronteiras dos países bálticos, Ucrânia e Bielorrússia. Aliás, na Lituânia a sua população parece preparar-se para o pior.  Como resposta a estas “provocações” a força aérea russa, tem sobrevoado o espaço aéreo de países membros da organização atlântica, como é exemplo Portugal.

 

O exército russo, assume já as posições estratégicas como fazia no tempo da antiga União Soviética. As constantes ameaças do Presidente Vladimir Putin devem ser vistas como uma forma silenciosa de ocupar posições estratégicas no continente europeu e no reforço da hegemonia político-militar no leste europeu e na Ásia Central.  A ingerência russa em territórios problemáticos como a Ossétia (Geórgia) e a Crimeia (Ucrânia) é uma forma de ocupação encapuçada, assumindo posições geoestratégicas no Cáucaso e no Mar Negro. No entanto, a Comunidade Internacional compactuou(a) com uma situação semelhante, a Chechénia, sendo caracterizado como um “assunto doméstico”.

 

Por sua vez, os Estados Unidos, poderão vir a assumir um papel diferente nas suas relações com Moscovo, uma vez que o novo inquilino da Casa Branca, Donald Trump, defende uma aproximação entre os dois países. Na sua campanha eleitoral, sempre realçou a necessidade de aproximação, bem como, desvalorizou a importância da NATO. Tendo em conta as suas declarações, parece que o novo Presidente dos Estados Unidos, despreza a importância que  esta organização tem na garantia da segurança do espaço europeu e até mesmo dos países da América do Norte. Sejamos claros, embora seja um defensor incondicional da paz no principio consagrado das Nações Unidas, a posição desta nova administração poderá ditar a criação de um sistema de defesa europeu, ou seja, o exército europeu, de forma a que a Europa não se torne refém das pretensões políticas de Donald Trump que tem sobre a NATO.

 

E essa aproximação de Trump com Putin, será a cedência dos EUA aos objetivos russos ou voltaremos a ter a política bélica e intervencionista dos EUA nos diferentes pontos do globo? Os próximos quatros anos, serão a resposta a essa pergunta. Enquanto o tempo passa, mais dúvidas nos surgem e as incertezas poderão converter-se em certezas.

 

Quanto à Síria, é um autêntico barril de pólvora que se poderá traduzir num conflito regional generalizado, onde se jogará novamente a política de alianças. O sistema de alianças político-militar, está desde já assumido por parte de alguns líderes políticos dessa região. Tendo em conta as declarações do Presidente sírio à RTP, ficou bem demonstrado a sua desconsideração face à Turquia e a forma como esta tem sido liderada.

 

No entanto, convém relembrar que a Turquia é membro da NATO, mas que tendo em conta a tensa relação atual com o ocidente, esta aproximou-se da Rússia, que não é encarada com bons olhos por parte do ocidente. O posicionamento da Turquia, poderá ser determinante para paz  regional. Assim como não deverá ser descurada a situação iraquiana, que ainda tem uma enorme fragilidade política e que tem uma guerra civil no seu território, principalmente a norte, contra os combatentes do Estado Islâmico.  A debilidade nesta região poderá ainda ser maior, com o reacender da questão curda, a reclamar para si um território. Um conjunto de ingredientes explosivos que põe esta região numa corrida contra o tempo, onde a incerteza é o fator dominante.

 

O problema sírio, é talvez uma das maiores derrotas que a Ordem Mundial, assente desde 1991, está a ter. Os relatos de terror ocorridos neste país asiático, são autênticos atos de guerra, cometidos pelas diferentes forças em confronto. Os esforços diplomáticos na resolução deste conflito têm sido insuficientes ou diria, de uma enorme inoperância, fazendo com que cada vez mais inocentes morram e sofram, a cada dia.

 

As atrocidades cometidas em Alepo, devem ser consideradas como autênticos crimes de guerra, sendo os responsáveis condenados nas instâncias internacionais. A sua desresponsabilização conduziria a uma vitória das balas sobre o Direito Internacional e  sobre o principio fundamental das Nações Unidas, a que todos os países inscritos. Alepo não é apenas uma cidade na Síria - é o estado do mundo. Onde o grito do medo ecoa pelas ruas vazias e frias da cidade. Um coração de um povo que sofre o terror das balas.

 

Poderia considerar-me um catastrofista, considerando inevitável um conflito global com repercussões inimagináveis, mas prefiro para já denominar esta situação, como a parte dois da guerra fria, com o ressurgimento da Rússia.

 

Embora para os principais líderes mundiais este cenário pareça um pesadelo ou filme, atrevo-me a utilizar o título de um filme de 2002, intitulado a Soma de Todos os Medos, mas que aqui o resultado não é ficção, é real.

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