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Palavras sobre o Mundo

Espaço destinado aos ecos, silêncios e construção do pensamento. Aos limites da racionalidade, mas sobretudo na reflexão sobre a grande pólis que embarcamos todos os dias, nesta vida. O mundo, seja bem-vindo.

Palavras sobre o Mundo

Espaço destinado aos ecos, silêncios e construção do pensamento. Aos limites da racionalidade, mas sobretudo na reflexão sobre a grande pólis que embarcamos todos os dias, nesta vida. O mundo, seja bem-vindo.

A página não mudou o mundo é que girou

por Tiago Aboim, em 03.01.20

Ainda estávamos a curar a ressaca do ano novo, quando acordamos com a notícia do assassinato de um dos mais importantes generais do exército do Irão, na capital do Iraque, Bagdad. A responsabilidade deste acontecimento foi do próprio Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump.

Volvidos quase 17 anos da invasão dos Estados Unidos ao Iraque, no falso propósito da existência das armas de destruição maciça, este recente acontecimento constitui um autêntico rastilho numa região que, já por si só, é explosiva.

O consulado de Trump na Casa Branca, a nível de política externa tem-se revelado um autêntico desastre, ainda para mais com este acontecimento.

Sobre o Irão, durante a administração Obama em 2015 com a bênção de potências europeias, bem como da China e Rússia, foi assinado um acordo que visava uma diminuição das sanções sobre Teerão, tendo como contrapartida a limitação das suas atividades nucleares, constituindo um pequeno triunfo de Obama na região do Médio Oriente

A administração Trump vai criar uma hostilidade diplomática ou até mesmo militar na região,em que os próximos dias ou até mesmo horas, poderão ter novos desenvolvimentos, com a entrada em jogo no xadrez geopolítico da Rússia, China, aliados da República Islâmica do Irão e de Israel, o mais fiel aliado dos Estados Unidos, na região. 

Quando comecei a escrever este "post" iria  fazer uma reflexão para aquilo que são os desafios do mundo para 2020 e este acontecimento veio reforçar  as minhas preocupações sobre a pólis em que vivemos.

Comecemos pelo continente europeu: O Brexit, constituirá a mais profunda alteração geopolítica na Europa depois da queda do muro de Berlim em 1989. As consequências para os britânicos deste seu isolacionismo poderão ser devastadoras para a sua economia, sociedade e a sua própria geografia, isto é, os riscos de uma desfragmentação do mapa da Grã-Bretanha, nomeadamente com os ventos de independentismo vindos da Escócia, e o reacender da tensão irlandesa. Um pretexto eleitoralista de David Cameron, em 2015 que levará ao desconhecido e que poderá desencadear um sentimento de outros países da Europa, nomeadamente a leste, como é o caso da Hungria, Polónia e Roménia. Estes três países quebram constantemente as regras europeias, na relação entre poderes e no respeito pelas liberdades individuais e coletivas, que tão caras são a estes povos de leste. 

Ainda no velho continente, Espanha e Itália apresentam soluções governativas extremamente débeis, que podem ser uma oportunidade para a afirmação de partidos políticos com posições anti Europa ou com posições de autodeterminação regional, como é caso da Catalunha, País Basco, Andaluzia, em solo espanhol.

No panorama político-partidário vejamos o Vox que é a terceira força no Câmara dos Deputados em Espanha, e as vitórias expressivas em várias localidades em Itália da Liga do Norte que podem conduzir Salvini a primeiro-ministro, face ao frágil governo de coligação entre o Partido Democrático e o Movimento Cinco Estrelas

Urge a Europa aproximar-se dos cidadãos, das suas vontades e dos seus anseios e no desígnio maior, a solidariedade entre os povos.

Estes últimos anos são os mais sombrios para aqueles que (ainda) acreditam no projeto europeu, como sendo um projeto de aproximar povos e nações, na superação das adversidades e dificuldades.

A crise dos refugiados constitui um dos maiores problemas dentro dos países europeus, não havendo uma estratégia comum na superação deste flagelo, que nos tanto atormenta, aparentemente só a alguns. 

Ainda a destacar a América Latina, um continente que durante o século XX serviu como laboratório experimental nas posições político-ideológicas da época, mas os recentes acontecimentos em países como a Argentina e Chile podem reabrir feridas de um passado que o presente ainda não sarou totalmente. O impasse venezuelano que este ano terá novos capítulos poderá desencadear um processo de guerra civil neste país. E o Brasil, o maior país da América do Sul, como será o segundo ano de Bolsonaro? Não sabemos.... mas sabemos que Lula está de volta, aguardemos.

Na Ásia, a afirmação da China como principal potência continental e global, inclusivé na liderança no combate às alterações climáticas. Assume posição estratégica em setores chaves (energia) de alguns países da Europa, que são exemplo Portugal e Grécia  e em África o caso de Angola. Tem um problema interno chamado Hong Kong, que tarda em ser resolvido e o Ocidente assiste na expetativa. Ainda neste continente, os problemas decorrentes do fundamentalismo islâmico, como é caso do Afeganistão. A questão Síria e do Iémen parece totalmente esquecida por parte da comunidade internacional, mas são feitos crimes contra a humanidade, um autêntico genocídio onde todos são culpados pela sua inação. Ainda neste capítulo, os massacres em Myanmar!

Em África, continuamos com o flagelo da fome e das convulsões internas dos seus países, que são suportados por interesses das principais potenciass globais e do fundamentalismo islâmico.

A Primavera Árabe, que varreu uma parte dos países do Magrebe gerou fenómenos de tensão social e política com dimensões inimagináveis, exemplo disso a atual situação da Líbia (caos!) 

Por fim, o ataque terrorista na cidade de Mogadíscio, na Somália que causou quase uma centena de mortos.

Eis o maior desafio de todos, o das alterações climáticas. Este ano ficamos  sensibilizados com a ação e resiliência de uma jovem sueca que ergue a voz por todos os que querem um mundo melhor e mais são limpo, de seu nome Greta Thunberg. Foram tantas as vezes que vimos a jovem sueca a questionar os "senhores do mundo" que é a chegada a altura de correspondermos às suas(nossas) preocupações. Os acontecimentos que assistimos no ano de 2019, como os incêndios na Amazónia que nos mostraram que nada está imune, para não falar do inferno dantesco que acontece atualmente na Austrália, ou as cheias que afetaram Portugal e Espanha ou a quantidade de plástico que se encontra por todo o oceano.

Os "ismos" que nos assustaram no passado, parecem ter acordado de um alarme que não ouvimos tocar. É hora de agir na problemática dos refugiados, de consciencializar para o impacto das alterações climáticas. Não somos apenas cidadãos de um país, A ou B, ou de um continente, somos de todo um mundo. Não se acomodem, questionem, levantem-se e ergam a vossa voz na defesa do nosso bem comum: a Terra. Os nossos filhos e netos não nos perdoarão se falharmos. Quando acordarem, lembrem-se da sorte de estarem vivos, de estarem em Paz, mas lembrem-se que muitos não sabem o que isso significa.
2020 é como todos os novos anos, um desafio, mas façam do ano novo o início do vosso, do nosso. 

 

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